EUA classifica PCC e CV como terroristas, pq isso pode fortalecer facções?

Especialistas alertam que classificar PCC e CV como terroristas pode gerar efeitos inesperados e fortalecer o crime organizado.

Greguy Looban

6/5/20264 min ler

A decisão do governo dos Estados Unidos de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas abriu um intenso debate no Brasil e no exterior. Para muitos, a medida parece uma resposta dura ao crescimento do crime organizado. No entanto, especialistas em segurança internacional alertam que o resultado pode ser justamente o contrário: fortalecer as facções em vez de enfraquecê-las.

A discussão ganhou força após a oficialização da medida pelo Departamento de Estado dos EUA em junho de 2026. Enquanto defensores argumentam que a classificação amplia instrumentos de combate financeiro e internacional, críticos afirmam que o enquadramento ignora diferenças fundamentais entre terrorismo e crime organizado.

Neste artigo, vamos entender por que alguns especialistas acreditam que essa decisão pode produzir efeitos inesperados e até beneficiar as organizações criminosas.

O que mudou com a decisão dos Estados Unidos?

Os EUA passaram a tratar PCC e CV como Organizações Terroristas Estrangeiras (Foreign Terrorist Organizations – FTO). Na prática, isso permite a aplicação de sanções financeiras, bloqueio de ativos, restrições migratórias e ampliação de mecanismos de inteligência.

Segundo o secretário de Estado norte-americano, as facções brasileiras estão entre as organizações criminosas mais violentas da América Latina e possuem influência transnacional.

Para os defensores da medida, o novo enquadramento cria ferramentas adicionais para rastrear dinheiro, identificar colaboradores e ampliar a cooperação internacional.

O principal argumento dos especialistas: PCC e CV não são grupos terroristas

Um dos pontos centrais da discussão é conceitual.

Tradicionalmente, o terrorismo possui motivação política, religiosa, ideológica ou étnica. Seu objetivo principal é produzir medo coletivo para alcançar uma agenda política.

Já organizações como PCC e CV têm como principal finalidade a obtenção de lucro por meio de atividades ilícitas, especialmente tráfico de drogas, armas e lavagem de dinheiro.

Por esse motivo, diversos especialistas afirmam que enquadrar facções criminosas como terroristas pode representar uma distorção jurídica e estratégica.

Inclusive, a legislação brasileira adota uma definição de terrorismo baseada em motivações ideológicas, religiosas, raciais ou discriminatórias, o que explica a resistência histórica das autoridades brasileiras em adotar essa classificação.

Como a classificação pode fortalecer as facções?

1. Aumento do status e da reputação criminal

Organizações criminosas dependem muito de reputação.

Quando um governo estrangeiro classifica uma facção como ameaça terrorista internacional, existe o risco de transformar o grupo em algo maior do que realmente é.

Em ambientes dominados pelo crime organizado, essa imagem pode servir como instrumento de recrutamento, intimidação e demonstração de poder.

Em outras palavras, a facção deixa de ser vista apenas como um grupo criminoso local e passa a ser percebida como um ator de relevância internacional.

2. Banalização do conceito de terrorismo

Especialistas também alertam para um problema conceitual.

Se organizações com objetivos puramente econômicos passam a ser classificadas como terroristas, o termo perde precisão.

Segundo análises publicadas após o anúncio americano, existe o risco de que o conceito de terrorismo se torne tão amplo que deixe de diferenciar grupos ideológicos de organizações criminosas tradicionais.

Essa confusão pode dificultar o desenvolvimento de políticas públicas adequadas para cada tipo de ameaça.

3. Mudança do foco das investigações

Outro ponto levantado por especialistas é a possível alteração na estrutura de cooperação internacional.

Autoridades brasileiras relataram preocupação de que investigações hoje conduzidas por órgãos policiais, como FBI e DEA, possam migrar para estruturas ligadas à inteligência e segurança nacional dos EUA. Isso poderia reduzir a transparência e dificultar a troca cotidiana de informações.

Na prática, uma estratégia construída durante décadas de cooperação policial poderia sofrer interrupções ou mudanças significativas.

4. Narrativa de perseguição

Grupos criminosos frequentemente exploram narrativas para fortalecer sua influência.

Ao serem classificados como terroristas por uma potência estrangeira, líderes criminosos podem utilizar esse discurso para alimentar sentimentos de confronto contra o Estado e aumentar a coesão interna dos grupos.

Embora isso não transforme as facções em movimentos políticos, pode servir como ferramenta de propaganda dentro dos territórios sob sua influência.

O que dizem os defensores da medida?

Nem todos concordam com essas críticas.

Os apoiadores da classificação argumentam que o PCC e o CV já possuem atuação internacional, movimentam bilhões de reais e operam redes sofisticadas de lavagem de dinheiro.

Nesse entendimento, o enquadramento como terrorismo amplia instrumentos para:

  • Bloqueio de bens;

  • Congelamento de ativos;

  • Restrição de movimentações financeiras;

  • Cooperação internacional;

  • Aplicação de sanções contra colaboradores.

Os defensores afirmam que organizações criminosas modernas possuem tamanho e capacidade operacional comparáveis a grupos considerados ameaças à segurança nacional.

O temor de impactos diplomáticos

Além das questões jurídicas e policiais, existe uma preocupação geopolítica.

Autoridades brasileiras e especialistas demonstraram receio de que a nova classificação transforme o combate ao crime organizado em uma questão de segurança nacional dos EUA. Isso poderia gerar atritos diplomáticos e discussões sobre soberania nacional.

Apesar disso, especialistas em direito internacional ressaltam que a classificação, por si só, não autoriza intervenções militares em território brasileiro.

O que o Brasil defende?

Historicamente, o governo brasileiro tem sustentado que PCC e CV devem ser combatidos como organizações criminosas, utilizando instrumentos de inteligência financeira, investigação patrimonial, repressão ao tráfico e cooperação policial internacional.

A posição oficial brasileira é que a classificação como terrorismo não resolve o problema central: a enorme capacidade econômica dessas facções e sua infiltração em mercados ilegais altamente lucrativos.

Conclusão

A decisão dos Estados Unidos de classificar PCC e CV como organizações terroristas representa uma das maiores mudanças recentes no debate internacional sobre crime organizado.

Para seus defensores, a medida amplia ferramentas de combate e enfraquece financeiramente as facções. Para seus críticos, ela pode produzir consequências inesperadas, como fortalecimento simbólico dos grupos, banalização do conceito de terrorismo e dificuldades na cooperação policial tradicional.

O debate revela uma questão maior: o crime organizado contemporâneo é tão complexo que talvez não possa ser enfrentado apenas com rótulos mais severos. O desafio continua sendo atacar suas fontes de financiamento, suas redes de lavagem de dinheiro e sua capacidade de infiltração econômica.

Mais importante do que a nomenclatura utilizada pode ser a eficiência das estratégias adotadas para reduzir o poder real dessas organizações.

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